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O que são óleos de cannabis?

Óleo de cannabis é um extrato: canabinoides e terpenos são retirados da planta e diluídos num óleo carreador (geralmente óleo de coco fracionado, o MCT, mas também azeite ou óleo de semente de uva), em concentração controlada, medida em miligramas por mililitro (mg/ml).

No Brasil, óleo tem um papel regulatório específico dependendo do caminho de acesso do paciente. Associações com autorização judicial (habeas corpus) podem produzir tanto flor quanto óleo para os associados. Já na importação individual (RDC 660), a ANVISA veda a entrada de cannabis in natura ou partes da planta (RDC 327/2019, reforçada pela Nota Técnica 35/2023): nesse caminho específico, óleos e outros extratos padronizados são a única opção legal. Fora essa diferença regulatória, óleo também entrega dose mais fácil de padronizar a cada frasco, diferente da vaporização, por exemplo, onde a dose inalada varia mais a cada uso.

O que muda de um óleo para outro não é só "CBD ou THC": é a combinação de três fatores. Tipo de extração (o que veio junto do canabinoide principal), concentração (mg/ml) e volume do frasco (ml). Essa página cobre os três.


Óleo não é só "gotinha de CBD"

Boa parte da conversa popular sobre óleo de cannabis se resume a CBD. Mas o mercado nacional tem óleos com THC predominante, CBD predominante e formulações balanceadas (aproximadamente 1:1). A escolha depende do quadro clínico e da prescrição, não de uma fórmula universal "melhor".


Tipos de extração

Full Spectrum

Extrato de espectro completo. Preserva todos os canabinoides e terpenos presentes na planta, incluindo THC dentro do limite regulatório (geralmente até 0,2~0,3%).

Vale saber

  • Perfil mais próximo da planta original
  • Inclui traços de THC, o que pode ativar teste toxicológico dependendo da dose
  • Mais indicado quando o objetivo é o possível efeito entourage

Nível de evidência (efeito entourage)

🟡 A hipótese do efeito entourage, de que canabinoides e terpenos juntos funcionam melhor que isolados, tem apoio pré-clínico e um estudo em camundongos frequentemente citado. Ainda faltam ensaios clínicos diretos em humanos comparando full spectrum a isolado nas doses usadas por pacientes.

Broad Spectrum

Mantém múltiplos canabinoides e terpenos como o full spectrum, mas passa por um processo adicional para remover o THC quase por completo.

Vale saber

  • Reduz bastante o risco de detecção em exame toxicológico
  • Mantém parte da complexidade da planta
  • O processo de remoção do THC pode alterar outros compostos

Nível de evidência (efeito entourage)

🔴 Existem poucos estudos comparando diretamente broad spectrum a isolado. O único achado comparativo disponível não encontrou diferença relevante de efeito entre os dois, mas a amostra desse tipo de estudo ainda é pequena.

Isolado

Um único canabinoide purificado (o mais comum é CBD isolado), sem THC, outros canabinoides ou terpenos.

Vale saber

  • Zero THC, o que reduz o risco em exame toxicológico
  • Dose do canabinoide isolado mais previsível e fácil de padronizar
  • Sem os demais compostos da planta, o que pode reduzir o possível efeito entourage

Nível de evidência (efeito entourage)

🟡 Alguns estudos sugerem que a presença de outros canabinoides, mesmo em traço, pode aumentar a biodisponibilidade oral do CBD. Ou seja, isolado pode absorver proporcionalmente pior que full ou broad spectrum na mesma dose nominal. Ainda é uma área de pesquisa em desenvolvimento.


Como ler a concentração no rótulo

O dado mais importante do frasco não é "tem CBD" ou "tem THC": é a concentração, em mg/ml. É ela que define a dose real de cada gota, e varia de forma relevante entre um frasco de início de tratamento e um de uso oncológico. A tabela abaixo mostra as faixas mais usadas por associações e prescritores no Brasil:

Canabinoide Categoria Faixa (mg/ml) Perfil típico de uso
CBD Baixa 5 mg/ml a 20 mg/ml Início de tratamento, pediatria e geriatria
CBD Média 25 mg/ml a 50 mg/ml Quadros moderados de ansiedade e distúrbios do sono
CBD Alta 100 mg/ml a 200 mg/ml Epilepsia refratária e dores crônicas severas
THC Traço (Residual) Menos de 0,5 mg/ml Extratos Broad Spectrum ou com limite regulatório de até 0,2%
THC Baixa a Média 1 mg/ml a 5 mg/ml Fórmulas Full Spectrum comerciais de farmácia ou importação
THC Alta (Específica) 10 mg/ml a 50 mg/ml Óleos de associações ou importados para oncologia e paliativos

Essas faixas são uma referência de mercado, não uma prescrição. A concentração e a dose corretas para cada paciente são definidas pelo médico prescritor, considerando quadro clínico, peso, resposta individual e uso concomitante de outros medicamentos.


Como calcular a dose

A conta é simples uma vez que se sabe os três números do frasco:

Concentração (mg/ml) × Volume por dose (ml) = Dose (mg)

Exemplo: um óleo de 30 mg/ml, tomando 0,5 ml (aproximadamente 10 gotas, variando conforme o conta-gotas), entrega 15 mg da fórmula naquela dose. O volume por gota muda entre fabricantes, então o conta-gotas que acompanha o frasco deve ser usado como referência, não outro genérico.

A orientação clínica mais consistente entre prescritores de cannabis medicinal é começar com a menor dose eficaz e aumentar aos poucos ("start low, go slow"), especialmente em fórmulas com THC. A resposta individual varia bastante, e efeitos colaterais (sonolência, boca seca, tontura) tendem a aparecer primeiro em doses muito altas para o paciente.


Sublingual funciona mesmo?

A orientação mais comum é pingar o óleo embaixo da língua e segurar por 60 a 90 segundos antes de engolir, na expectativa de absorção direta pela mucosa oral (o que evitaria o fígado e, em teoria, aumentaria a biodisponibilidade). A ciência mais recente qualifica bastante essa expectativa:

  • A biodisponibilidade por via oral (engolindo) fica em torno de 4 a 20% para THC e cerca de 6% para CBD em jejum. A maior parte é perdida no metabolismo de primeira passagem pelo fígado.
  • Estudos com formulações sublinguais mostram uma biodisponibilidade parecida com a da via oral, com evidência crescente de que boa parte do óleo colocado sob a língua acaba sendo engolida de qualquer forma, em vez de absorvida diretamente pela mucosa. Ou seja, o hábito de "segurar embaixo da língua" ajuda menos do que a intuição sugere.
  • Uma refeição rica em gordura pouco antes da dose aumenta significativamente a absorção do CBD, já que canabinoides são lipossolúveis. É um fator mais consistente e mais fácil de controlar do que a técnica de aplicação.

Como interpretar essas informações?

Como nas páginas de terpenos e canabinoides, aqui também diferenciamos o nível de evidência por trás de cada afirmação. Muito do que se fala sobre óleo (sublingual, entourage, "melhor" tipo de extração) tem base científica ainda em construção, não consenso fechado.

Tratamos essas informações como possíveis associações, não como promessas terapêuticas.

Nível Significado
🟢 Evidência mais forte Estudos clínicos em humanos e revisões científicas.
🟡 Evidência preliminar Estudos em animais, laboratório ou ensaios clínicos pequenos/isolados: mecanismos plausíveis, mas ainda sem confirmação ampla.
🔴 Associação observacional Pesquisa majoritariamente pré-clínica ou baseada em relatos, sem ensaios clínicos publicados em humanos até o momento.

Referências

  • SBEC (Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis). Principal entidade de formação médica continuada e diretrizes clínicas sobre cannabis medicinal no Brasil. sbec.med.br
  • Acervo do Prof. Elisaldo Carlini (UNIFESP/CEBRID). Pesquisa pioneira mundial sobre CBD nas décadas de 1970 e 1980, incluindo o primeiro ensaio clínico duplo-cego com CBD em pacientes com epilepsia (Cunha et al., 1980, Pharmacology).
  • Hosseini A, et al. (2021). A phase I trial of the safety, tolerability and pharmacokinetics of cannabidiol administered as single-dose oil solution and single and multiple doses of a sublingual wafer in healthy volunteers. British Journal of Clinical Pharmacology.
  • Taylor L, et al. A high-fat meal significantly impacts the bioavailability and biphasic absorption of cannabidiol (CBD) from a CBD-rich extract. Scientific Reports.
  • Russo EB. (2011). Taming THC: Potential Cannabis Synergy and Phytocannabinoid-Terpenoid Entourage Effects. British Journal of Pharmacology.
  • ANVISA. RDC nº 327/2019 e Nota Técnica 35/2023 (vedação à importação de cannabis in natura e partes da planta).
  • ClinicalTrials.gov e PubMed, priorizando ensaios clínicos randomizados e duplo-cegos (termos MeSH "Cannabidiol" e "Endocannabinoid System") em vez de relatos de caso isolados. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov · clinicaltrials.gov
  • National Center for Complementary and Integrative Health (NCCIH). nccih.nih.gov

Aviso: As informações desta página têm caráter educativo e não substituem orientação médica. A dose, concentração e tipo de extração corretos para cada paciente devem ser definidos por um profissional habilitado, considerando quadro clínico, prescrição e características individuais.

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